Salinas (MG)

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39560-000

POPULAÇÃO: 35 mil pessoas

PRODUTORES DE CACHAÇA DA CIDADE: 23

MARCAS DE CACHAÇA: 38

PRODUÇÃO TOTAL ANUAL: cerca de 2 milhões de litros no município (no Brasil todo são 1,3 bilhão de litros)

PRIMEIROS REGISTROS DA CACHAÇA NO BRASIL: no século 16. Os portugueses usavam a aguardente para amaciar a carne do porco adulto – o cachaço

Por Ronaldo Ribeiro Fotos de Izan Petterle

Os dois cães de guarda parecem não se importar com nossa visita. A cadela mais velha nos lança um olhar desinteressado e volta a dormir. Não é uma chegada convencional – o dono da casa, Osvaldo Santiago, ainda demora incertos minutos para surgir. Perdidos, eu e o fotógrafo Izan já havíamos batido num sítio vizinho antes de finalmente acertar o caminho até a casa esmeralda, o epicentro da fazenda Havana, nas faldas da serra dos Bois, norte de Minas. Estamos no começo de agosto, início da safra da cana-de-açúcar nos arredores de Salinas. É apenas a segunda semana de moagem da cana, e a Havana encara um delicado rito de passagem. Pela primeira vez em 60 anos, o alambique da propriedade vem destilando aguardente sem a supervisão do homem que concebeu a lendária cachaça produzida ali. "São dias de grande ausência, mas temos certeza do trabalho que nos cabe", confessa Osvaldo, filho de Anísio Santiago, que morreu em dezembro passado, aos 91 anos.

A história de Anísio Santiago confunde-se com a de Salinas, cidade onde são produzidas as mais cobiçadas cachaças artesanais do Brasil, e das quais a Havana sempre foi o símbolo mais cintilante. O alquimista que criou a fórmula de transformar pinga em ouro era um homem perfeccionista e obsessivo, e concebeu um modelo de alambicagem e envelhecimento da bebida até hoje não decifrado pelos concorrentes. Preferia a paz e a reclusão de sua pequena fazenda, e jamais se deixou fotografar. Nem todos que batiam a sua porta conseguiam comprar uma garrafa e, dizem, só bebeu cachaça uma vez, quando tinha 12 anos – no resto da vida, preferiu cerveja. Em 2001, Anísio viu-se envolvido num imbróglio por patentes com uma importadora de rum homônima e teve de deixar de usar a marca Havana. Não se fez de rogado: apenas botou seu nome no rótulo e deixou a confusão correr nos tribunais, em que tramita até hoje.

Qual o segredo das célebres pingas de Salinas? Geografia, tradição, disciplina. A concepção da bebida nas acanhadas fazendas locais respeita um processo secular que pouco mudou desde que, em 1876, o emigrante baiano Balduino dos Santos começou a fabricar rapadura e cachaça para o consumo dos escravos e amigos. A perene luminosidade e as terras ricas em calcário do sertão mineiro facilitam a produção de cana com alto teor de açúcar. A garapa extraída fermenta em dornas de madeira, misturada ao fubá de milho ou a quirera de arroz que, nesse processo químico, transformam o açúcar em álcool. O mosto resultante vai então ser destilado em rústicos alambiques de cobre, onde o calor de uma fornalha separa três fases de bebida. Reza a boa receita que apenas a fase do meio, chamada de "coração", seja depois levada aos tonéis de madeira – bálsamo, imburana ou ipê-amarelo – para envelhecer por pelo menos dois anos. "A cachaça é minha vida. Escreva aí: ainda vou ganhar o mundo", anuncia Antônio Rodrigues, que me recebe com ares messiânicos – barba grisalha caindo no peito e galhinho de arruda atrás da orelha. A julgar por seus atuais empreendimentos, Rodrigues vai mesmo longe. Maior produtor individual do município, ele comercializa por ano, com três marcas diferentes, 1,4 milhão de litros de cachaça, dois terços da produção total de Salinas.

O intenso comércio sustenta uma atividade econômica importante. Porém, ao contrário do que se possa imaginar, não se bebe tanto assim em Salinas. Nesse sentido, é uma cidade como outra qualquer, na qual muitos bebericam socialmente ao fim do dia, outros são abstêmios e uns poucos, como é praxe na história da humanidade, vez por outra se embebedam além da conta e acabam dormindo na calçada ou protagonizando baixarias em praça pública. A diferença ali é a classe das cachaças. Ninguém consome as mais populares marcas brasileiras, envenenadas pelos aditivos químicos no processo industrial. Em Salinas, só se prova a cachaça da terra, e mesmo o mais humilde produto local (50 centavos de real a dose) merece ser brindado como uma iguaria. "Aqui, ser chamado de cachaceiro é quase uma honra", confessa um freguês de um bar que, por via das dúvidas ("A mulher, sabe como é..."), pede para não dizer seu nome.

É com um fiel time de empregados – dois cortadores, dois moedores, um alambiqueiro – que Osvaldo Santiago pretende continuar produzindo a principal referência dessa qualidade, não questionada por ninguém na cidade. A natureza já lhe deu uma boa mão. As terras da fazenda Havana, um pouco mais altas, não têm nada de sal em seu solo, tão presente em outras paragens que gerou o nome Salinas. O fermento orgânico também é peculiar (cana verde triturada e molhada com garapa). A diferença maior, porém, parece estar em certos detalhes que cercam os oito anos de envelhecimento – quase tão secretos quanto a fórmula da Coca-Cola. "Meu pai guiava-se sobretudo por um princípio: não ter usura", resume Osvaldo.

A demanda, de fato, é criteriosamente sufocada: saem do engenho no máximo 10 mil garrafas por ano. Com essa baixíssima oferta, a unidade da Anísio Santiago custa 70 reais na fazenda e, na distância de 17 quilômetros até a cidade, já inflaciona mais de 100% – é cotada a 150. Em grandes cidades fora de Minas, pode valer 250 reais. As garrafas de safras antigas, que ainda mantêm o rótulo Havana, podem bater na casa dos 500, e só são achadas hoje na mão de colecionadores. A Havana atingiu um prestígio tão incomum que deixou de ser produto para virar moeda. Anísio pagava as contas da farmácia e do supermercado, por exemplo, com cachaça. Idem com os funcionários da fazenda, que até hoje preferem não receber em dinheiro. Podem capitalizar bem mais vendendo as garrafas na cidade.

"O velho Anísio me dizia para só usar cana plantada por mim e, principalmente, não ter pressa nem ambição", lembra-se Laeste Pinto de Souza, 47 anos, produtor de cachaça e dono do bar Trianon, tradicional reduto de apreciadores e entendedores. Procuro Laeste em minha segunda tarde em Salinas, no fim de um dia em que, após uma rápida visita a alguns pontos-de-venda da bebida, eu já havia provado umas quatro ou cinco (ou seis?) doses de marcas diferentes. Izan cumpria o mesmo périplo etílico, no meio do qual havíamos inclusive sido apresentados ao prefeito do município. Laeste, então, traz o brinde que faltava: uma velha garrafa que lhe fora dada de presente, e que ele vinha consumindo na base do conta-gotas. Serve um gole de cortesia – a Havana não é vendida em doses em nenhum bar da cidade. Eu sei que o excesso de expectativa pode distorcer os sentidos, e reconheço que jamais fui um degustador confiável – parte da minha juventude foi animada por aqueles pouco confiáveis vinhos de garrafão. Foi fácil, porém, sentir que havia algo de especial naquela bebida. Para mim, era o suficiente. Pedi uma garrafa de água gelada e me sentei a uma mesa na calçada, apenas para ver a cidade passar.

Um exército de adolescentes vestidos de verde toma conta das ruas, todos de saída da escola agrotécnica municipal, destino de nove entre dez estudantes salinenses. Trabalhadores apressam-se de bicicleta, enxada na garupa, vindos de alguma roça nos arredores. Senhoras parecem seguir para a igreja vizinha. E cai a noite na esquina das ruas Padre Salustiano com Barão do Rio Branco, no simplório e aconchegante bar do Laeste, que a essa altura já havia posto a churrasqueira na calçada para acender o carvão. Entre apimentados espetinhos de alcatra, cerveja gelada e, claro, cachaça da boa, ali são discutidas todas as coisas fundamentais da vida dos salinenses: a chuva que ainda não veio, as boas terras à venda, a atual safra de cana, as últimas da novela das 8, as vitórias do Cruzeiro em Belo Horizonte.

A serena rotina de Salinas, na verdade, só é quebrada às sextas e aos sábados, quando a maioria dos habitantes (que vivem na zona rural) viaja até o mercado central para a grande feira onde são negociadas hortaliças frescas, requeijão, charque, fumo de corda, nacos de rapadura, porcos e galinhas vivos. Boa parte dessas iguarias sertanejas vem de lugares como o distrito de Matrona, a 40 quilômetros, famoso pela rara fertilidade de suas terras – mas só quando Deus manda alguma chuvinha e possibilita que os açudes garantam uma irrigação regular. Da empoeirada Matrona saem safras generosas de tomate e é ali que Noé Santiago Soares, 63 anos, também trabalha para tirar da cachaça uma incômoda fama de bebida de categoria inferior – e dar a ela, por que não?, o mesmo status do velho e bom uísque escocês. Seu sobrenome não engana: ele trabalhou anos no alambique com o tio, Anísio, e trouxe para seu sítio o conhecimento que lhe permitiu criar outra marca agora muito badalada, a Canarinha.

Mas Noé anda ressabiado. Meses atrás, agentes federais andaram por Salinas baixando uma série de normas sanitárias estranhas aos velhos hábitos da região – entre elas, o uso de tonéis de metal para a fermentação da garapa, em substituição às dornas de bálsamo. Ele terá também de fechar o pequenino galpão, sem paredes, onde mantém as dornas e o alambique. "O vento difere na fermentação", reclama ele. "Quanto mais alterar o método artesanal, maior o risco. Nossa receita é um patrimônio do país."

Enquanto conversamos, vou saboreando tragos de um drinque diferente: pinga quente, que acabou de sair do alambique. Um néctar. Faz calor, a tarde é seca, e chegam ao sítio alguns velhos compadres de Noé. Assunto: uma sonhada emancipação política de Matrona, seguindo os passos de outro município vizinho, Novorizonte, também produtor de boas cachaças. Bebo outra dose. O calor aumenta. Um dos visitantes argumenta sobre a importância do pleito, a economia local, as riquezas agropastoris da vila... Eu tentei estender a conversa, mas confesso que não me lembro bem o que foi que respondi a ele – se é que respondi alguma coisa. Não fossem três providenciais copos de garapa, doce como nunca provara antes, talvez eu não soubesse mais nem mesmo o que estava fazendo ali, quem eram aquelas pessoas, ou o melhor caminho de volta à cidade.

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